{"id":1294,"date":"2011-08-18T19:33:12","date_gmt":"2011-08-18T22:33:12","guid":{"rendered":"http:\/\/&#038;p=151"},"modified":"2026-06-09T18:18:58","modified_gmt":"2026-06-09T18:18:58","slug":"a-intervencao-humana-e-os-recursos-naturais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/adz.technology\/demarest\/a-intervencao-humana-e-os-recursos-naturais\/","title":{"rendered":"A interven\u00e7\u00e3o humana e os recursos naturais"},"content":{"rendered":"<div>A riqueza do min\u00e9rio est\u00e1 muito menos nele do que nos esfor\u00e7os que t\u00eam que ser mobilizados&nbsp;para a sua explora\u00e7\u00e3o.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>S\u00e3o as terras que fazem poss\u00edvel a agricultura ou \u00e9 o contr\u00e1rio?<\/div>\n<div><\/div>\n<div>A contribui\u00e7\u00e3o mais rica da ci\u00eancia econ\u00f4mica \u00e0 compreens\u00e3o das atividades prim\u00e1rias e do papel dos&nbsp;recursos naturais prende-se \u00e0 seguinte proposi\u00e7\u00e3o: recursos naturais n\u00e3o existem; eles precisam ser&nbsp;criados.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O conte\u00fado dessa afirma\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 autoevidente e pode mesmo causar estranheza. Vamos torn\u00e1-lo&nbsp;mais claro.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Qual \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o da agricultura com as terras? S\u00e3o as terras que fazem poss\u00edvel a agricultura ou \u00e9 a&nbsp;agricultura que torna as terras agricultur\u00e1veis? \u00c9 claro que a agricultura depende de terras, mas \u00e9 a&nbsp;dedica\u00e7\u00e3o \u00e0 agricultura que cria terras adequadas, ao lado de outros recursos.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Assim tem sido desde a antiguidade, mundo afora e no Brasil. O aproveitamento das terras \u00e0s margens&nbsp;do Nilo, no Egito Antigo, dependeu do conhecimento sobre o regime de \u00e1guas e levou ao estudo dos&nbsp;astros. O desenvolvimento sustent\u00e1vel da agricultura demanda esfor\u00e7os, investimentos.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>S\u00e3o evid\u00eancias disso o desenvolvimento de t\u00e9cnicas de dom\u00ednio dos ciclos das \u00e1guas, de prote\u00e7\u00e3o do&nbsp;solo e das culturas, de limpeza e fertiliza\u00e7\u00e3o do solo, de adequa\u00e7\u00e3o das sementes e das variedades de&nbsp;plantas a cada tipo de condi\u00e7\u00e3o de solo e clima, e tantos outros.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>A terra estava longe de ser um recurso, era um recurso em porvir, e nunca viria a ser sem a a\u00e7\u00e3o&nbsp;deliberada do homem. Foi a pesquisa agr\u00edcola que criou as terras agr\u00edcolas adequadas do centrooeste;&nbsp;foi a ferrovia que criou os eixos que moldaram a geografia de S\u00e3o Paulo (Araraquarense, Mogiana,&nbsp;Paulista, Sorocabana), tornou terras aptas ao cultivo, depois levou \u00e0 ind\u00fastria.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>A minera\u00e7\u00e3o suscita uma reflex\u00e3o an\u00e1loga. Para que os recursos naturais tenham valor econ\u00f4mico e&nbsp;social, \u00e9 preciso cri\u00e1-los. \u00c9 necess\u00e1rio, primeiro, identificar a jazida.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Isso ocorre com prospec\u00e7\u00e3o, um trabalho n\u00e3o trivial. De atividade de homens pr\u00e1ticos tornouse o&nbsp;neg\u00f3cio de pessoas preparadas cient\u00edfica e tecnicamente no s\u00e9culo XIX, quando os EUA criaram&nbsp;diversas escolas superiores e formaram profissionais em geologia. Entre a identifica\u00e7\u00e3o do min\u00e9rio e&nbsp;seu uso industrial existe um longo percurso, envolvendo planejamento e execu\u00e7\u00e3o. \u00c9 ele que cria o&nbsp;recurso (dito) natural, por interven\u00e7\u00e3o humana.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Os EUA exploraram intensamente seus recursos minerais no s\u00e9culo XIX. A explora\u00e7\u00e3o das reservas&nbsp;aumentou-as \u2014 um paradoxo aparente que ajuda a entender o conceito de recursos naturais.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>A explora\u00e7\u00e3o mineral n\u00e3o resultou em esgotamento, mas ampliou a disponibilidade desses recursos e&nbsp;a riqueza associada.&nbsp;Cada ciclo de descoberta e de valoriza\u00e7\u00e3o dos recursos estimulou mais esfor\u00e7os e descobertas.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O desenvolvimento de solu\u00e7\u00f5es em uma explora\u00e7\u00e3o permitiu o seu uso em outras oportunidades,&nbsp;gerou novas solu\u00e7\u00f5es. A explora\u00e7\u00e3o de uma mina com certo teor permitiu, depois, desenvolver minas&nbsp;com teores inferiores.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>A explora\u00e7\u00e3o cria recursos.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Para explorar um recurso \u00e9 necess\u00e1rio mobilizar antes outros recursos. A intelig\u00eancia e o&nbsp;conhecimento dos ge\u00f3logos, a informa\u00e7\u00e3o computacional e os modelos complexos e sofisticados que&nbsp;auxiliam na interpreta\u00e7\u00e3o dos \u201cdados\u201d (ali\u00e1s, que tamb\u00e9m n\u00e3o s\u00e3o dados, nem achados, s\u00e3o coletados,&nbsp;processados, interpretados), os equipamentos e os indiv\u00edduos que se deslocam para o campo, as&nbsp;amostras coletadas, os projetos para viabilizar o empreendimento, os recursos financeiros mobilizados&nbsp;para permitir os investimentos s\u00e3o atos econ\u00f4micos criadores de riqueza antes que a mina possa&nbsp;produzir o primeiro resultado material pr\u00f3prio. S\u00e3o apostas privadas com resultados sociais; e eles&nbsp;precedem qualquer resultado que possa ser apropriado pelo empreendedor, pela empresa, pelos&nbsp;investidores.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>A riqueza do recurso natural est\u00e1 muito menos nele pr\u00f3prio do que nos recursos produtivos que t\u00eam&nbsp;que ser mobilizados para sua explora\u00e7\u00e3o. \u00c9 ela que incita a cria\u00e7\u00e3o de conhecimentos, compet\u00eancias,&nbsp;capacidades, equipamentos, instala\u00e7\u00f5es, insumos, energia, combina\u00e7\u00f5es de todos esses elementos e&nbsp;capacidades de coordena\u00e7\u00e3o para explorar o recurso mineral.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Para o empreendedor, o recurso s\u00f3 ser\u00e1 rent\u00e1vel quando a venda do resultado da explora\u00e7\u00e3o superar os&nbsp;investimentos realizados; mas para a sociedade, a riqueza foi criada desde que o primeiro&nbsp;investimento foi realizado, desde a prospec\u00e7\u00e3o at\u00e9 o momento em que os min\u00e9rios come\u00e7am a ser&nbsp;produzidos.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Uma explora\u00e7\u00e3o bem sucedida suscita novos investimentos, novas mobiliza\u00e7\u00f5es de recursos, novas&nbsp;prospec\u00e7\u00f5es, e com isso v\u00e3o aumentando os resultados e as reservas. \u00c9 por isso que os recursos n\u00e3o&nbsp;s\u00e3o, eles tornam-se, v\u00eam a ser: se o ambiente favorece a atividade, se uma explora\u00e7\u00e3o produz&nbsp;resultados consistentes com o investimento realizado, o \u00e2nimo dos investidores \u00e9 refor\u00e7ado e com isso&nbsp;as atividades de prospec\u00e7\u00e3o crescem e as reservas podem ver-se ampliadas.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Foi assim que os EUA, que Benjamin Franklin e seus contempor\u00e2neos viam como pobre em recursos&nbsp;minerais e fadados a ser um pa\u00eds agr\u00edcola, se tornaram um pa\u00eds mineral e industrial.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>A atividade prim\u00e1ria (e a minera\u00e7\u00e3o, especificamente) \u00e9 din\u00e2mica.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Para que a minera\u00e7\u00e3o possa cumprir um papel relevante no desenvolvimento de um pa\u00eds \u00e9 necess\u00e1rio&nbsp;criar v\u00ednculos entre cada explora\u00e7\u00e3o e as explora\u00e7\u00f5es posteriores.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Numa economia cada vez mais integrada no plano internacional, a possibilidade de selecionar alguns&nbsp;projetos (e n\u00e3o outros) torna a competitividade de uma determinada explora\u00e7\u00e3o um elemento chave&nbsp;para a decis\u00e3o sobre as pr\u00f3ximas explora\u00e7\u00f5es. Se o empreendimento, a empresa e os investidores,&nbsp;zelosos dos seus recursos financeiros, s\u00e3o levados a quebrar o ciclo virtuoso da explora\u00e7\u00e3o que&nbsp;multiplica os recursos, ent\u00e3o a redu\u00e7\u00e3o da explora\u00e7\u00e3o pode conduzir \u00e0 redu\u00e7\u00e3o das reservas.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O pa\u00eds que alimenta o seu ciclo virtuoso aumenta a sua produ\u00e7\u00e3o e as suas reservas, enquanto o pa\u00eds&nbsp;que reduz a sua produ\u00e7\u00e3o reduz tamb\u00e9m as suas reservas. Recursos n\u00e3o s\u00e3o, recursos tornam-se: pelos&nbsp;esfor\u00e7os e pela aplica\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica do principal recurso criado pela a\u00e7\u00e3o humana \u2014 o conhecimento.&nbsp;\u00c9 o conhecimento que produz todos os recursos, inclusive os que chamamos naturais.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>*Jo\u00e3o Furtado economista, \u00e9 professor da Poli (USP), coordenador de inova\u00e7\u00e3o da Fapesp e diretor da&nbsp;Elabora Consultoria.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>**Eduardo Urias economista, \u00e9 mestre em Pol\u00edtica Cient\u00edfica e Tecnol\u00f3gica e doutorando na&nbsp;Universidade de Maastricht<\/div>\n<div><\/div>\n<div><strong>Fonte: Valor Econ\u00f4mico (24\/06\/11)<\/strong><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A riqueza do min\u00e9rio est\u00e1 muito menos nele do que nos esfor\u00e7os que t\u00eam que ser mobilizados&nbsp;para a sua explora\u00e7\u00e3o. S\u00e3o as terras que fazem poss\u00edvel a agricultura ou \u00e9 o contr\u00e1rio? 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