{"id":17125,"date":"2021-05-12T10:22:54","date_gmt":"2021-05-12T13:22:54","guid":{"rendered":"http:\/\/williamfreire.com.br\/?p=17125"},"modified":"2026-06-09T18:23:57","modified_gmt":"2026-06-09T18:23:57","slug":"sangue-negro-e-os-signos-juridicos-da-mineracao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/adz.technology\/demarest\/sangue-negro-e-os-signos-juridicos-da-mineracao\/","title":{"rendered":"Sangue Negro e os signos jur\u00eddicos da minera\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que o \u00e9pico filme de Paul Thomas Anderson ensina sobre o direito dos recursos minerais<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-tiago-de-mattos\">Tiago de Mattos<\/h4>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-style-default\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/adz.technology\/demarest\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/mina2.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-17180\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sangue Negro (<em>There Will Be Blood<\/em>, no original) entrou para a hist\u00f3ria do cinema pela atua\u00e7\u00e3o magistral de Daniel Day-Lewis no papel de Daniel Plainview. Superada a intensa experi\u00eancia cinematogr\u00e1fica relacionada ao autodenominado&nbsp;<em>homem do petr\u00f3leo<\/em>&nbsp;\u2013 que desperta \u00f3dios e paix\u00f5es pelo seu comportamento err\u00e1tico, oscilando entre a sagacidade \u00fanica dos grandes empreendedores e a odiosidade caracter\u00edstica dos sociopatas \u2013, o filme ilustra, com sensibilidade \u00fanica, grandes li\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas aplicadas ao aproveitamento de recursos minerais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ainda que a ess\u00eancia da narrativa se direcione ao desenvolvimento de po\u00e7os de petr\u00f3leo na Calif\u00f3rnia no in\u00edcio do s\u00e9culo XX, o filme traz reflex\u00f5es claramente associadas ao Direito da Minera\u00e7\u00e3o. As cenas iniciais retratam Plainview, em suas atividades pr\u00e9-petr\u00f3leo, trabalhando exaustivamente em um po\u00e7o, em busca de ouro e prata, algo que nos remete \u00e0 iconografia do&nbsp;<em>garimpo<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A sequ\u00eancia mostra a complexidade do trabalho de identifica\u00e7\u00e3o do material rico frente aos minerais sem valor e apresenta dois conceitos relevantes para o mundo jur\u00eddico da minera\u00e7\u00e3o: o de&nbsp;<em>beneficiamento<\/em>&nbsp;\u2013 Daniel levando sua produ\u00e7\u00e3o a uma usina, para separar os minerais pobres da subst\u00e2ncia mineral \u00fatil \u2013 e o de&nbsp;<em>concentrado<\/em>&nbsp;<em>mineral<\/em>&nbsp;\u2013 a obten\u00e7\u00e3o do certificado t\u00e9cnico do produto final levado por ele \u00e0 usina, indicando a presen\u00e7a de contaminantes, como o cobre.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essas passagens nos remetem \u00e0 complexidade da defini\u00e7\u00e3o jur\u00eddica de produto, subproduto, e do pr\u00f3prio min\u00e9rio, especialmente quando fisicamente associados, sem possibilidade ou conveni\u00eancia t\u00e9cnica, de separa\u00e7\u00e3o. Uma clara chamada \u00e0 revis\u00e3o do conceito de&nbsp;<em>aditamento&nbsp;<\/em>a que estamos acostumados, como se todas as subst\u00e2ncias minerais existentes em uma mina pudessem ser indistintamente individualizadas.<br><br>Seguindo a trajet\u00f3ria de Daniel \u2013 j\u00e1 de terno e gravata e embocadura de empres\u00e1rio \u2013, as cenas em que ele negocia a aquisi\u00e7\u00e3o de propriedades para seus projetos nos despertam para uma quest\u00e3o jur\u00eddica relevant\u00edssima, que pauta a base regulat\u00f3ria do aproveitamento de recursos minerais em qualquer jurisdi\u00e7\u00e3o:&nbsp;<em>A quem pertencem tais recursos<\/em>? No contexto do filme, a negocia\u00e7\u00e3o revela o&nbsp;<em>sistema de acess\u00e3o<\/em>, em que o dono do im\u00f3vel tamb\u00e9m \u00e9 dono dos recursos localizados em sua propriedade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se f\u00f4ssemos imaginar essa cena no Brasil, em momento p\u00f3s-1934 \u2013 quando demos in\u00edcio, na era republicana, \u00e0 separa\u00e7\u00e3o entre a propriedade imobili\u00e1ria e a propriedade mineral \u2013, ver\u00edamos Daniel indo at\u00e9 o ent\u00e3o Departamento Nacional de Produ\u00e7\u00e3o Mineral (DNPM) \u2013 e n\u00e3o aos propriet\u00e1rios \u2013 checar se tal \u00e1rea estaria livre, para ent\u00e3o requer\u00ea-la. A conversa com as fam\u00edlias propriet\u00e1rias dar-se-ia somente ap\u00f3s a obten\u00e7\u00e3o do consentimento da Uni\u00e3o, criando para Daniel um mecanismo adicional de convencimento dos propriet\u00e1rios: a utilidade p\u00fablica da minera\u00e7\u00e3o.<br><br>Eli, o antagonista de Plainview, ao receber uma oferta de pre\u00e7o para a compra do rancho da fam\u00edlia, dispara, enf\u00e1tico: \u201c<em>E o valor do petr\u00f3leo, do nosso petr\u00f3leo?<\/em>\u201d. Daniel explica que o petr\u00f3leo, como produto econ\u00f4mico, n\u00e3o existe ali. S\u00f3 existir\u00e1 se algu\u00e9m arriscar e investir grandes quantias para eventualmente o achar, em quantidades vi\u00e1veis, que possam levar \u00e0 sua produ\u00e7\u00e3o. No ch\u00e3o, e desconhecidos, esses recursos nada valeriam para os propriet\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa sequ\u00eancia nos leva \u00e0s estruturas jur\u00eddicas dos consentimentos minerais, regularmente divididas em duas fases (pesquisa e lavra), e \u00e0 necess\u00e1ria constru\u00e7\u00e3o de mecanismos jur\u00eddicos para assegurar que quem assume o risco de descobrir reservas minerais ter\u00e1 o direito exclusivo de aproveit\u00e1-las. Se Eli fosse brasileiro e o empreendimento em disputa fosse miner\u00e1rio, sua interven\u00e7\u00e3o teria certo fundamento, em raz\u00e3o do par\u00e1grafo segundo do art. 176 da Constitui\u00e7\u00e3o:&nbsp;<em>\u00e9 assegurada participa\u00e7\u00e3o ao propriet\u00e1rio do solo nos resultados da lavra, na forma e no valor que dispuser a lei<\/em>. Daniel poderia, no c\u00e1lculo do pre\u00e7o, incluir o valor da participa\u00e7\u00e3o do propriet\u00e1rio no resultado da lavra descontada a valor presente \u2013 ou avisar a Eli que essa parcela s\u00f3 seria devida o projeto efetivamente atingisse a fase produ\u00e7\u00e3o, algo que talvez ocorresse uma d\u00e9cada \u00e0 frente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mantendo o foco na rela\u00e7\u00e3o com os superfici\u00e1rios, h\u00e1 outra passagem emblem\u00e1tica. Para expandir suas atividades, e conseguir transportar o petr\u00f3leo at\u00e9 os navios, Plainview decide construir um oleoduto (por meio do seu engenhoso acordo com a Union Oil), e percebe que uma propriedade por onde passar\u00e1 a estrutura n\u00e3o lhe pertence. Ao abordar o dono \u2013 ressentido por n\u00e3o ter procurado por Daniel antes \u2013, ouve a negativa: \u201cN\u00e3o tenho interesse em desenvolver um po\u00e7o em minha terra.\u201d Plainview, visceralmente satisfeito, replica: \u201cN\u00e3o tenho interesse em construir um po\u00e7o em sua terra. Vou passar o oleoduto nela\u201d. A certeza do direito na fala de Daniel \u00e9 fundamentada na prote\u00e7\u00e3o jur\u00eddica de uso das \u00e1reas necess\u00e1rias \u00e0 viabiliza\u00e7\u00e3o de estruturas acess\u00f3rias \u00e0 produ\u00e7\u00e3o, uma \u00f3tima ilustra\u00e7\u00e3o do conceito de&nbsp;<em>servid\u00e3o<\/em>&nbsp;\u2013 mineral, caso estiv\u00e9ssemos diante de um mineroduto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por \u00faltimo, e n\u00e3o menos brilhante, em di\u00e1logo \u00e9pico ao final do filme, Daniel e Eli nos ensinam o conceito de&nbsp;<em>rule of capture<\/em>. Eli, em desespero financeiro, tenta vender \u00e1rea adjacente \u00e0quelas desenvolvidas por Daniel, afirmando que ali haveria petr\u00f3leo. Plainview, sarc\u00e1stico, afirma que tais po\u00e7os est\u00e3o secos \u2013 ele j\u00e1 tinha<em>&nbsp;sugado<\/em>&nbsp;todo o seu conte\u00fado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eli, confuso, afirma que seria algo imposs\u00edvel, pois ningu\u00e9m havia feito furos e instalado equipamentos no local. Daniel, fazendo o gesto de tomar algo de longe, com a ajuda de um longo canudo fora da \u00e1rea do copo, grita: \u201c<em>Eu tomei todo o seu milkshake! Eu tomei tudo!\u201d.<\/em>&nbsp;A pr\u00e1tica de drenar fluidos de uma propriedade adjacente \u00e9 algo comum na ind\u00fastria do \u00f3leo e g\u00e1s, pol\u00eamica secular j\u00e1 enfrentada por v\u00e1rios ordenamentos jur\u00eddicos, e bem retratada na decis\u00e3o do Poder Judici\u00e1rio americano no caso&nbsp;<em>Westmoreland Natural Gas Co. vs. De Witt,&nbsp;<\/em>levando, inclusive, ao desenvolvimento do conceito de unitiza\u00e7\u00e3o, que busca compartilhar, entre os seus titulares, o ganho do aproveitamento de po\u00e7os que se estendem por mais de uma \u00e1rea outorgada. Uma \u00f3tima reflex\u00e3o sobre os poss\u00edveis instrumentos jur\u00eddicos para viabilizar o melhor aproveitamento de min\u00e9rio em minas vizinhas, atividade especialmente complexa, por n\u00e3o tratar de material fluido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 v\u00e1rios outros signos espalhados pelo filme que remetem ao imagin\u00e1rio da minera\u00e7\u00e3o, como a negocia\u00e7\u00e3o de&nbsp;<em>taxas de corretagem<\/em>&nbsp;com os descobridores de \u00e1reas potenciais, a negocia\u00e7\u00e3o coletiva com a comunidade para o desenvolvimento de projetos, a corrida de novos mineradores em busca de \u00e1reas pr\u00f3ximas \u00e0quelas rec\u00e9m-descobertas e os perigos relacionados \u00e0 falta de seguran\u00e7a ocupacional dos trabalhadores em po\u00e7os, no modelo de trabalho prec\u00e1rio do in\u00edcio do s\u00e9culo XX. O conjunto da obra, todavia, \u00e9 certeiro ao demonstrar o principal elemento associado a toda e qualquer regula\u00e7\u00e3o jur\u00eddica da atividade mineral: o risco.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Amando ou odiando Plainview, o espectador reconhece nele a ousadia de enfrentar obst\u00e1culos vigorosos para a materializa\u00e7\u00e3o dos projetos, atitude invi\u00e1vel se n\u00e3o fundamentada em algum grau de prote\u00e7\u00e3o jur\u00eddica \u00e0 atividade. No tamb\u00e9m cl\u00e1ssico&nbsp;<em>O Tesouro de Sierra Madre<\/em>&nbsp;\u2013 refer\u00eancia confessamente utilizada por Paul Thomas Anderson em&nbsp;<em>Sangue Negro<\/em>&nbsp;\u2013, o personagem Howard, ao ser questionado sobre o valor do ouro, responde com a li\u00e7\u00e3o que todo minerador experiente j\u00e1 internalizou:&nbsp;<em>\u201cMil homens, digamos, v\u00e3o em busca de ouro. Depois de seis meses, um deles tem sorte: um em mil. Sua descoberta representa n\u00e3o apenas seu pr\u00f3prio trabalho, mas tamb\u00e9m o de novecentos e noventa e nove outros. S\u00e3o seis mil meses, quinhentos anos, escalando uma montanha, ficando com fome e sede. Uma on\u00e7a de ouro, senhor, vale o que \u00e9 por causa do trabalho humano que foi necess\u00e1rio para encontr\u00e1-lo e obt\u00ea-lo\u201d.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Seria Howard o mentor empresarial de Plainview? Roteiro para um pr\u00f3ximo filme.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O que o \u00e9pico filme de Paul Thomas Anderson ensina sobre o direito dos recursos minerais Tiago de Mattos Sangue Negro (There Will Be Blood, no original) entrou para a hist\u00f3ria do cinema pela atua\u00e7\u00e3o magistral de Daniel Day-Lewis no papel de Daniel Plainview. 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