{"id":9380,"date":"2020-11-15T16:08:02","date_gmt":"2020-11-15T19:08:02","guid":{"rendered":"https:\/\/williamfreire.com.br\/?p=9380"},"modified":"2026-06-09T18:23:58","modified_gmt":"2026-06-09T18:23:58","slug":"familia-hughett-e-lavra-irregular-compensacao-financeira-e-o-innocent-trespasser","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/adz.technology\/demarest\/familia-hughett-e-lavra-irregular-compensacao-financeira-e-o-innocent-trespasser\/","title":{"rendered":"Fam\u00edlia Hughett e lavra irregular: compensa\u00e7\u00e3o financeira e o innocent trespasser"},"content":{"rendered":"<h4>Tiago de Mattos<\/h4>\n<p>Podemos aprender algo com os precedentes ianques sobre invas\u00e3o mineral?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 19 de maio de 1950, a corte de apela\u00e7\u00f5es do Kentucky (EUA) enfrentou mais um t\u00edpico caso de invas\u00e3o de propriedade e remo\u00e7\u00e3o de minerais. O condado de Caldwell havia arrendando uma \u00e1rea, aparentemente n\u00e3o disputada, para que o Sr. Morse extra\u00edsse fluorita no local. Mas John Hughett e sua esposa, Sra. Maude Hughett, detentores do im\u00f3vel, entenderam que a atividade era irregular. Acionaram o Poder Judici\u00e1rio em busca de compensa\u00e7\u00e3o pelo min\u00e9rio retirado dali<a href=\"https:\/\/www.jota.info\/opiniao-e-analise\/colunas\/mineral\/mineracao-financeiro-innocent-trespasser-15112020#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A fam\u00edlia Hughett saiu vitoriosa, como era de se esperar \u2013 lembrando que, na\u00a0<em>Common Law<\/em>\u00a0americana, os minerais localizados em im\u00f3veis privados integram o patrim\u00f4nio do propriet\u00e1rio. Mas a segunda parte do precedente \u00e9 a mais interessante: Como foi calculado o valor devido aos Hughett?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aceleremos o tempo e mudemos de cen\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na \u00faltima d\u00e9cada, vimos uma enxurrada de a\u00e7\u00f5es civis p\u00fablicas ajuizadas pela Uni\u00e3o, buscando ressarcimento pela lavra irregular cometida Brasil afora. Certas inconsist\u00eancias jur\u00eddicas \u00e0 parte \u2013 o tortuoso racioc\u00ednio para sustentar a alega\u00e7\u00e3o de imprescritibilidade da demanda, por exemplo \u2013, \u00a0h\u00e1 dois problemas graves na fundamenta\u00e7\u00e3o dessas disputas: (a) a generaliza\u00e7\u00e3o das condutas dos mineradores e (b) o m\u00e9todo usado para definir o valor da compensa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobre o item (a), a Uni\u00e3o tende a n\u00e3o individualizar as circunst\u00e2ncias de cada caso, equiparando erros operacionais comuns de empresas que operam \u00e0 luz do dia, em \u00e1reas sem restri\u00e7\u00e3o \u00e0 minera\u00e7\u00e3o e j\u00e1 tituladas por essas empresas \u2013 ou seja, fora da esfera de viola\u00e7\u00e3o do interesse de terceiros \u2013 \u00e0 atua\u00e7\u00e3o maliciosa de\u00a0<em>profissionais da usurpa\u00e7\u00e3o<\/em>, que, intencionalmente, invadem direitos miner\u00e1rios e espa\u00e7os protegidos, sem cerim\u00f4nia, sem t\u00edtulo e sem respeito \u00e0s melhores pr\u00e1ticas t\u00e9cnicas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobre o item (b), o pedido da Uni\u00e3o \u00e9 a condena\u00e7\u00e3o ao pagamento de valores correspondentes ao volume de min\u00e9rio lavrado, multiplicado pelo pre\u00e7o de venda do produto. Em mi\u00fados: condena\u00e7\u00e3o pelo faturamento bruto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Voltemos ao Kentucky.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A decis\u00e3o do tribunal trouxe um elemento importante para o caso: a an\u00e1lise da conduta subjetiva do invasor. Os ju\u00edzes, aplicando os conceitos de\u00a0<em>boa-f\u00e9<\/em>\u00a0e\u00a0<em>m\u00e1-f\u00e9<\/em>\u00a0nas a\u00e7\u00f5es para o desenvolvimento mineral, diferenciaram os tipos de invasores. Aqueles que demonstravam\u00a0<em>boa-f\u00e9<\/em>\u00a0na conduta, comprovando uma atua\u00e7\u00e3o leg\u00edtima em busca da lavra correta, recebiam o carimbo de\u00a0<em>innocent trespassers<\/em>. J\u00e1 os outros, que intencionalmente atuavam de forma desonesta para se apropriar de bem mineral sabidamente pertencente a terceiros, eram tachados de\u00a0<em>willful trespassers.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa divis\u00e3o, para al\u00e9m da pecha\u00a0<em>moral<\/em>, teve uma fun\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica relevant\u00edssima: a aplica\u00e7\u00e3o de m\u00e9todos diferentes para c\u00e1lculo do valor devido em cada hip\u00f3tese.<\/p>\n<blockquote class=\"jota-article__eye\"><p>No caso dos\u00a0<em>innocent trespassers<\/em>, a compensa\u00e7\u00e3o era limitada a duas teorias (<em>majority<\/em>\u00a0e\u00a0<em>minority rules<\/em>). Se o\u00a0<em>invadido<\/em>\u00a0comprovasse condi\u00e7\u00f5es de minerar, ele mesmo, a \u00e1rea invadida, o\u00a0<em>invasor<\/em>\u00a0seria condenado ao valor de venda do produto mineral, deduzidos os custos para a obten\u00e7\u00e3o do min\u00e9rio. \u00a0Se\u00a0<em>invadido<\/em>\u00a0n\u00e3o comprovasse sua capacidade, o\u00a0<em>invasor<\/em>\u00a0seria condenado apenas ao valor de\u00a0<em>royalty<\/em>\u00a0praticado na regi\u00e3o.<\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">O fundamento desta segunda teoria \u00e9 que o propriet\u00e1rio incapaz capaz de minerar nunca poderia lucrar com a atividade. Entretanto, poderia receber uma participa\u00e7\u00e3o do resultado, se arrendasse a \u00e1rea a quem pudesse faz\u00ea-lo. Somente no caso dos\u00a0<em>willful trespassers\u00a0<\/em>\u00e9 que a compensa\u00e7\u00e3o seria equivalente ao valor total de venda do produto mineral, com uma ressalva importante: a exist\u00eancia, no direito norte-americano, da figura dos\u00a0<em>punitive damages<\/em>, que permite uso das indeniza\u00e7\u00f5es civis como ve\u00edculos para imposi\u00e7\u00e3o de san\u00e7\u00f5es pecuni\u00e1rias \u00e0queles que, ilegalmente, causam danos a terceiros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alguma semelhan\u00e7a f\u00e1tica com a situa\u00e7\u00e3o brasileira? Algumas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Atribuindo \u00e0 Uni\u00e3o o papel de\u00a0<em>invadida,\u00a0<\/em>a compensa\u00e7\u00e3o pelo valor devido n\u00e3o alcan\u00e7aria o faturamento bruto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por for\u00e7a constitucional, \u00e9 vedado \u00e0 Uni\u00e3o realizar a atividade de minera\u00e7\u00e3o de forma direta<a href=\"https:\/\/www.jota.info\/opiniao-e-analise\/colunas\/mineral\/mineracao-financeiro-innocent-trespasser-15112020#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>, cabendo-lhe apenas o gerenciamento estrat\u00e9gico dos recursos minerais por meio da outorga de consentimentos, para que os particulares, de forma exclusiva, possam aproveitar o seu potencial econ\u00f4mico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Transportando o caso americano para a nossa realidade, na hip\u00f3tese do\u00a0<em>innocent trespasser<\/em>, caberia \u00e0 Uni\u00e3o apenas o valor da sua poss\u00edvel participa\u00e7\u00e3o financeira no resultado da atividade (<em>minority rule<\/em>) \u2013 problema resolvido, j\u00e1 que a Compensa\u00e7\u00e3o Financeira pela Explora\u00e7\u00e3o de Recursos Minerais (CFEM) faria as honras da casa. Ainda que se aplicasse a\u00a0<em>majority rule<\/em>, a compensa\u00e7\u00e3o se limitaria ao lucro da atividade, j\u00e1 que o invasor teria direito \u00e0 dedu\u00e7\u00e3o de todos os custos envolvidos na opera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 v\u00e1rios casos semelhantes na jurisprud\u00eancia americana. No excelente<em>\u00a0Ruminations on the Continuing Evolution of Trespass Law in the Context of Mineral Development<\/em><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/opiniao-e-analise\/colunas\/mineral\/mineracao-financeiro-innocent-trespasser-15112020#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><em><strong>[3]<\/strong><\/em><\/a>, Keith B. Hall nos d\u00e1 uma aula sobre como esses conceitos foram forjados, e de como os precedentes s\u00e3o aplicados no Alasca, na Calif\u00f3rnia, em Ohio, em Nevada e em v\u00e1rios outros Estados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas que fim levaram os Hughett?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sendo uma fam\u00edlia de mineradores, tamb\u00e9m engajados na minera\u00e7\u00e3o de fluorita, foram compensados com o valor de venda do min\u00e9rio obtido pelo Sr. Morse (cerca de US$ 45.000,00 em valor hist\u00f3rico), deduzidas, todavia, as despesas incorridas por ele para obter e comercializar o produto mineral.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/opiniao-e-analise\/colunas\/mineral\/mineracao-financeiro-innocent-trespasser-15112020#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a>\u00a0<em>Hughett v. Caldwell County.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/opiniao-e-analise\/colunas\/mineral\/mineracao-financeiro-innocent-trespasser-15112020#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a>\u00a0Exceto nas hip\u00f3teses aproveitamento mineral de minerais nucleares e seus derivados, nos termos da do art. 21, XXIII, da Constitui\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica Federativa do Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/opiniao-e-analise\/colunas\/mineral\/mineracao-financeiro-innocent-trespasser-15112020#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a>\u00a0HALL, Keith B. Ruminations on the Continuing Evolution of Trespass Law in the Context of Mineral Development.\u00a0<strong>LSU Journal of Energy Law and Resources<\/strong>, v. 8, n. 2, p. 10, 2020.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tiago de Mattos Podemos aprender algo com os precedentes ianques sobre invas\u00e3o mineral? Em 19 de maio de 1950, a corte de apela\u00e7\u00f5es do Kentucky (EUA) enfrentou mais um t\u00edpico caso de invas\u00e3o de propriedade e remo\u00e7\u00e3o de minerais. 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